Cuidado para não sermos hipócritas ao criticar Carlinhos Maia

Saída do armário do influenciador digital é grande prova para saber quem realmente vive o textão que escreve

Publicado em 04/02/2019
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Não, ele não é dono da razão, mas muitos comentários sobre ele contradizem nossa bandeira

Por Welton Trindade

Veja se você defende tudo ou pelo menos parte do que vem abaixo:

1) Liberdade para cada pessoa ser o que quiser ser e viver como quiser viver.

2) Respeito à pluralidade de pensamentos e visões de vida.

3) Empatia para (tentar ao menos) se colocar no lugar da outra pessoa para entender as razões dela.

Bom, há possibilidade de você ter dito ao menos um sim, mas se você realmente defende alguma causa identitária, notadamente a LGBT, a trinca é inescapável.

Mas saiamos da teoria, nesse campo tão fácil de sermos perfeitos, exemplares, humanos e donos de enfiar o dedo na cara dos outros. 

Caiamos na realidade! Ela é que mostra se a pessoa dona dos mais lacratórios textões mantém a pose depois de meio tuíte alimentado por um impulso (sempre bem revelador).

Tratemos do caso do influenciador digital e comediante Carlinhos Maia.

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Depois de ter dito em entrevista, há um tempo, que gostava de "pessoas" (a tal bissexualidade como rota de fuga e nome menos feio), eis que neste domingo 3 ele - claro, nos stories - disse com todas as letras e caretas: é gay. E não só: tem relacionamento de 10 anos com um homem. E mais: vai se casar em breve.

Seriam só mais dois vistos de residência permanente no Vale. Mas houve rebuliço. 

A maioria dos comentários foi de felicitações e palavras carinhosas para com Maia e seu futuro maridón. Entretanto, o rosário também contou com algumas críticas.

E é aí que se torna necessário ver se os senões a algumas posturas e escolhas de Maia revelaram mais sobre quem jogou o petardo do que sobre o alagoano.

- Ele não ter se assumido antes.
Primeiramente, algo compreensível de sentir: claro que sabemos da importância de pessoas públicas, principalmente famosos, se assumirem como LGB ou T.

Ajudam a tornar a não-heterossexualidade e transgeneridade questões menos alienígenas. Mas esse desejo deve ser controlado.

A pessoa é famosa... Mas viu? Antes de tudo ela é pessoa! Tem suas questões, suas limitações, seus medos... Podemos lamentar ela não tratar disso abertamente, mas é só isso.

E Maia foi muito claro aí. Ele tem pais idosos e empreendeu um processo nada rápido tampouco fácil para falar da homossexualidade dele. E eis que um dia tudo aconteceu da melhor forma.

Sabe os três pontos acima? Quem "exige" ou "cobra" saída do armário de pessoa pública não cumpre nenhum deles.

No mais, tente fazer mesmo de leve o ponto 3: alguém cobrando você se assumir sem saber de toda sua história e situações. Gostou?

Foi aí que ele aplicou o termo "ditadura gay do mal". Bom, acho que a resposta do exercício anterior mostrará se ele falou algo tão absurdo assim ou não!

- Ser heteronormativo
Aí - por não conseguir fazer as caretas de Maia - fico apenas com as palavras dele: que c* é ser heteronormativo?

Ok, sei sim como esse termo é aplicado... mal aplicado. Mal definido.

Em dois pontos: que se pare de falar que um gay ser masculino conforme o padrão social ocidental seja heteronormativo.

Quando se fala isso, coloca-se que ser masculino é algo de propriedade de homens héteros. Quem disse que todo gay deve ser afeminado, lacrativo ou que quer que seja? Apenas parem!

E mais: espere aí! Defender o ponto 1, chegar a bradar que cada pessoa é única e toda forma de ser é válida, mas na hora de um gay ser como ele quiser ser ou é - só por ele ser mais ou totalmente masculino - jogar pedra?

Que liberdade é essa que tanto defendemos? Que respeito é esse o qual batemos no peito quando falamos?

E Maia falou que quem quiser usar saia, usar batom, que use. Mas que essa não é a dele. E aí? Alguém tem o direito de querer tomar conta do corpo e da vivência dele e determinar o que é certo e errado? No corpo alheio? Sério isso? 

- Uso da sexualidade como arma para a fama

Alguém disse aqui que Maia só falou grandes verdades e não deve ser contradito? Não! Não mesmo!

Eis um exemplo: ele deixa a entender que toda pessoa LGBT assumida usa a sexualidade como forma de ganhar fama.

Quanta besteira! Primeiramente, que é mentira. E, em segundo lugar, como seria uma pessoa hétero usar a sexualidade dela para se promover? Sim, porque a regra deveria valer de forma geral.

O ponto aqui é como algumas pessoas o criticaram: "ah, ele é homofóbico, transfóbico". E aí, foi relembrado o episódio no qual ele criticou Romagaga.

Não é de ver aí homo ou transfobia! Apenas uma visão dele, que pode ser tida como conservadora, antiquada etc. Ele acha feio mostrar a bunda como maior atrativo na carreira. E daí? Isso não passa de um valor dele.

E ele, nos shows, não gosta de falar da própria sexualidade, até porque maioria do público dele é hétero. E daí? Virou crime fazer essa escolha?

Quem desejar, coloque rótulo nele de conservador. Não vá aos shows dele. Não dê audiência ao que ele faz. E é até aí que vai o limite. Agora, dizer que ele faz discurso de ódio por isso? É demais!

Como saldo de tudo, fica algo que nós mesmos tanto dizemos: discriminar LGBT é horrível. E ser hipócrita, tal como quem é contra casamento homo, mas gosta de ver sexo lésbico, é tão pior quanto.

Pois é, então não sejamos esse segundo tipo de pessoa. Vai nos ajudar e muito a vencermos o primeiro tipo.

Sejamos o exemplo!


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